quinta-feira, 15 de junho de 2017

O CORPO E O SANGUE DE CRISTO

Marcelo Barros



Queridos irmãos e irmãs, 

          Nessa quinta-feira, a Igreja Católica celebra a festa do Corpo e Sangue de Cristo. Em muitas paróquias se fazem reflexões sobre a Eucaristia. Algumas dioceses substituem a antiga procissão por uma concentração com celebração eucarística. No entanto, qual é a situação atual da celebração da Ceia de Jesus nas Igrejas cristãs? 
            Desde a antiguidade, a eucaristia teve diversos nomes e passou por diversas compreensões: a partilha do pão foi o primeiro nome encontrado em textos do Novo Testamento. Esse nome indica o significado mais profundo e primeiro da Ceia: partilhar. Fazer um sinal de que ao partilhar o mesmo pão e vinho, queremos partilhar a vida. E nessa partilha, reconhecemos Jesus Ressuscitado que parte e reparte o pão para nós e é o provocador da nossa mudança de vida e do fato de que queremos partilhar a vida, do jeito que for possível e o mais que nós pudermos. 

             Os primeiros pais da Igreja, como Inácio de Antioquia e Irineu de Lyon a inculturaram ao mundo grego e a chamaram de eucaristia, ação de graças. Aí já há uma passagem interpretativa. Parece que ao gesto da partilha se sobrepôs a dimensão cultual que antes existia na própria partilha. "Ele tomou o pão, pronunciou a bênção (isso é, em hebraico, disse que Deus está de acordo) ou "deu graças" (em grego) e repartiu". Agora a celebração vai tomando um aspecto mais cultual. Mais tarde, foi incorporada a noção de sacrifício e a partir do século IV passou a se chamar de Missa. 

                 Na Idade Média, o debate da hierarquia católica contra Berengário (século XI) sobre a transubstanciação ou transignificação  é o que está por trás da festa do Corpus Christi que nasceu em algumas dioceses no século XII e foi oficializada no século XIII para toda a Igreja. Aí o importante era sublinhar a presença real de Jesus na hóstia. 

                   Hoje, muitas Igrejas cristãs buscam a unidade, mas a eucaristia, que é o sacramento da unidade é ainda um obstáculo para essa unidade. Embora algumas defendam a hospitalidade eucarística, a maioria acredita que a participação na eucaristia supõe a unidade visível já realizada e enquanto não se chegar a isso, ainda não se celebra juntos e nem se comunga da mesma ceia. 

                 O pastor Paolo Ricca fala de um verdadeiro apartheid eucarístico nas Igrejas, seja por discriminarem outros crentes julgados indignos de comungar, seja porque, na própria forma de praticar a ceia, as Igrejas parecem ter se afastado do que Jesus viveu (a ceia na qual acolhia sempre os pecadores) e aos discípulos na última ceia deu o supremo sinal do seu amor: dar a vida. Hoje a eucaristia parece mais um ato de poder do que de amor. Muitas regras litúrgicas sobre quem pode fazer isso e quem não pode, muitas restrições para a comunhão, muitas obrigações de rubricas a cumprir e textos a serem seguidos... O que significa isso para a maioria da humanidade de hoje? Será que esse rigorismo litúrgico fala bem de Jesus e apresenta ao mundo hoje uma imagem de Deus amor? Nem falar da própria noção de sacrifício ainda hoje presente nos textos e na cabeça de muitos ministros e sem o devido aprofundamento bíblico e patrístico de como se entendia que a missa era sacrifício (Como dizia Agostinho no século IV, o memorial do sacrifício da cruz, o sacrifício que pôs fim definitivo a todos os sacrifícios do mundo). 

                   Ao reler o capítulo 13 do evangelho de João e ver a cena do lava-pés, podemos pensar que no final do século I, quando a comunidade joanina escreveu esse relato, as Igrejas locais já tinham transformado a ceia de Jesus em culto religioso e até sacrificial. E a comunidade joanina escreveu o relato do lava-pés como uma espécie de anti-texto, de provocação quase como se parecesse anti-eucarística, para lembrar às comunidades que o núcleo da ceia é esse: lavar os pés uns dos outros e doar a vida, como fez Jesus despojado de suas vestes ao lavar os pés dos discípulos e ao ser pregado na cruz. 

                 Ó Deus de amor, olha a mim, teu pobre servo que ama tanto celebrar e olha as tuas Igrejas espalhadas pelo mundo. Dá a mim e a todos os cristãos a graça de nunca celebrar a ceia de Jesus de forma qualquer, quase rotineiramente (como diria Bonhoeffer - como graça barata - Não, a graça custa caro. Custou a vida de Jesus). Dá-nos a graça de que eu, nós todos, as Igrejas todas, nos convertamos ao espírito mais profundo da ceia de Jesus - o serviço uns dos outros, a doação da vida como pobre e crucificado pelo mundo - e não como ato de poder jurídico ou sacramental sem ligação com a realidade. Ensina-nos a dar de Deus a imagem de um Amor infinito que só pode amar e não de um Senhor todo-poderoso, sedento de sangue e de sacrifícios para salvar o mundo.   Dá nos a graça de fazer de toda a nossa vida uma vida eucarística, isso é, de ação de graças, de partilha e de doação aos outros. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 


quarta-feira, 19 de abril de 2017

DUAS CELEBRAÇÕES PASCAIS LEIGAS


Já no ano passado, como não tínhamos padres presentes entre nós (o irmão Marcelo Barros, nosso orientador espiritual, estava no México), decidimos fazer uma das celebrações do Tríduo Pascal - a Vigília Pascal no sábado santo -  como muitas comunidades eclesiais de base fazem em todo o Brasil e outros países da América Latina - de forma laical e sem padre.

Celebrando como compreendemos que, nas Igrejas primitivas, celebravam os primeiros cristãos - nas casas e de forma doméstica. E documentos eclesiais até o século II mostram que as comunidades celebravam juntas a memória de Jesus, mesmo quando não podiam contar com a presença de ministros ordenados. E no ano passado, essa experiência foi tão boa e fecunda para  a unidade do grupo que, nesse ano, resolvemos retomar a mesma experiência.

 Dessa vez, o irmão Marcelo voltou de viagem na véspera da 5a feira santa, mas chegou imobilizado por uma fratura de fêmur e, por cuja recuperação, damos graças ao Deus libertador de todas as dores. Por isso, na 5a feira santa, às 18 horas, o Encontro da Partilha, o Fé e Política Dom Helder Camara, IDHeC, Igreja Nova e irmãos e irmãs de outros grupos como Tenda da Fé, CEBI e MTC, se reuniram na varanda das Fronteiras (Espaço Dom Lamartine) e ali, em torno de uma mesa, foi feita a memória da ceia de Jesus. E aqui, queremos deixar claro que não foi celebrada a Santa Missa e sim  um ágape fraterno e ecumênico.

Se toda a missa é comunhão então ela poderia ser ecumênica. Como a igreja tem o cuidado de que essa unidade seja trabalhada e não seja uma coisa superficial, ela reserva a eucaristia para aqueles que são católicos e, em nossos Encontros, celebramos um ágape ecumênico. Não é uma missa, é uma celebração em que a gente retoma a memória da ceia de Jesus para que seja, um dia, celebrada por todas as igrejas cristãs de uma maneira unida.

Na Quinta-feira o grupo era mais ou menos de umas 20 pessoas. A coordenação coube, como no ano passado, a Heloísa  e Verônica.

Elas, ao lado do irmão Marcelo, sempre sentado devido à sua recuperação, ajudaram a comunidade a lembrar a Páscoa de Israel - na noite em que as comunidades judaicas fazem a ceia pascal - e a ceia de Jesus, com o gesto do lava-pés. Todo mundo lavou os pés de todo mundo. Para o grupo, aquele era um sinal do serviço recíproco que prestamos uns aos outrosm como também um compromisso de assumirmos e aceitarmos as fragilidades uns dos outros, salvos pela cruz de Jesus, prefigurada no seu gesto de depor as vestes e lavar os pés dos discípulos. Lembramos então a própria instituição da ceia de Jesus como profecia de doação da vida e partilha.

No sábado à noite, novamente os grupos se reuniram em torno das 18h30min para mais um ágape ecumênico. Havia em torno de 35 pessoas. Um irmão começou lendo uma homilia de Santo Agostinho para a noite da Páscoa: “essa é a mãe de todas as vigílias da Igreja e todo cristão deve celebrá-la para viver com Jesus a vida nova que o Pai lhe deu nessa madrugada que hoje celebramos". 

Em seguida, todos se dirigiram para a frente da Igreja, reunidos em redor do fogo novo da Páscoa. Ali foram lembradas as escuridões que ainda ameaçam a nossa vida e a vida do nosso povo. As irmãs abençoaram o Círio pascal e seguindo a luz do Círio, retornaram à varanda, onde escutaram e participaram do alegre anúncio da Páscoa (o Exsultet). Depois, foi feita a  memória das páscoas antigas de Deus com o seu povo. Lembrando a criação, foi assumido em conjunto o compromisso de cuidado com a Casa Comum, como chama o papa Francisco. Depois, foi lida a carta aos romanos, de  São Paulo,   dizendo que "nós que somos batizados, morremos e ressuscitamos com Jesus para uma vida nova"

Heloísa  ajudou a cantar o Aleluia da Páscoa e Leda Alves, que  deu a todos a alegria de sua presença,  proclamou o evangelho da ressurreição. A meditação, feita em comum e em forma de diálogo foi sobre como o anúncio da ressurreição foi entregue às mulheres. E como hoje ainda as mulheres são profetizas da ressurreição de Jesus e de um novo modo do mundo se organizar. 

O padre Antônio, que apareceu para celebrar com o grupo e se inseriu em no modo que a Partilha costuma celebrar, contou que nesses dias, o papa Francisco equiparou na liturgia romana a festa de Santa Maria Madalena à mesma dignidade da festa dos apóstolos. Ela é apóstola dos apóstolos. Depois juntos, todos fizeram a bênção do pão e do vinho e repartiram juntos o bolo e chocolate que foram levados. A despedida foi cada um abençoando uns aos outros, umas às outras, com as mesmas palavras com as quais os primeiros cristãos se saudavam: "O Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia". 

Foi muito gratificante contar com a presença de irmãos e irmãs que participaram pela primeira vez das celebrações da Partilha, partilhando esses dois momentos tão importantes na celebração da Paixão de Jesus Cristo.

O grupo Encontro da Partilha se reúne uma vez por mês, sempre aos sábados, no Espaço  Dom Lamartine, terraço da igreja das Fronteiras, das 15h às 17h.

CELEBRAÇÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA




segunda-feira, 13 de março de 2017

COMO VIVER A PÁSCOA HOJE NO BRASIL E NO MUNDO?


A preparação para a grande festa da ressurreição do Senhor, a Páscoa, começa na quarta-feira de cinzas, início do tempo da Quaresma.

E, foi com o objetivo de fazer uma reflexão e uma preparação para viver concretamente a Páscoa que alguns  grupos se reuniram na sede do MTC – Movimento de trabalhadores Cristãos, na tarde do sábado 04 de março, para um pequeno retiro, tendo como pregador o monge Marcelo Barros.











Os grupos Encontro da Partilha, Fé e Política Dom Helder Camara, Leigos Católicos Igreja Nova, Tenda da Fé, o Fórum Articulação de Leigos Cristãos e o IDHeC – Instituto Dom Helder Camara, juntaram-se, na parte da tarde, aos que já estavam no local, desde a parte da manhã, refletindo sobre a Campanha da Fraternidade 2017: Instituto Missionário Franciscano Filhos de Maria, Missionários de Jesus Crucificado, Carmelitas, Servas Franciscanas , Franciscanas de Bom Conselho, Franciscanas Maristela e MTC.





Ao todo participaram cerca de 50 pessoas, todas voltadas para um único objetivo: viver a Páscoa da forma mais fiel possível.

No chão, um quadro que irmã Adélia pintou e presenteou Marcelo Barros, mostrava uma mulher representando a mãe natureza, permanentemente grávida, sempre pronta a dar a luz a vida, tendo ao lado um globo terrestre, a Bíblia, uma vela acesa, um jarrinho com um cacto, uma foto de Dom Helder, ladeado por Pe. José Comblin e Pe. Geraldo Leite , em uma caminhada em Ponte dos Carvalhos e um pano roxo, mostrando que estamos no tempo da Quaresma. Juntos, o planeta Terra, a mãe natureza, a vela que ilumina os caminhos, o cacto que teima em sobreviver à seca, a Palavra de Deus e Dom Helder, nos chamavam a viver a Quaresma de forma a nos prepararmos para a morte do ser humano velho e o renascimento com Cristo em Páscoa que, verdadeiramente, signifique uma passagem, uma transformação.






O Retiro foi aberto com a exibição do vídeo do hino da Campanha da Fraternidade desse ano e, em seguida, cada um dos presentes se apresentou, dizendo seu nome e o grupo ao qual pertencia.


Um belo repente falando sobre a conscientização na preservação do meio ambiente deu continuidade ao Retiro, em sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade.


De mão em mão, o globo terrestre foi sendo entregue, simbolizando o cuidado que cada um deve ter com o planeta.







Marcelo Barros transmitiu um recado que Dom Pedro Casaldáliga enviou aos participantes do Retiro: que fossem levados em consideração dois elementos: Retiro de que e Para que?

De que?

Durante a nossa vida nos criamos algumas dependências, das quais até gostamos. Mas, Páscoa é libertação. Não existe Páscoa de aceitamos a nossa escravidão, sem uma busca pela liberdade. Se para nossa libertação precisamos dar 20 passos, comecemos com um passo de cada vez.

Para que?

Os presentes se dividiram em pequenos grupos, alguns com seus colegas de comunidade, outros variados, para refletir sobre: Deus está me pedindo para sair de que? E para que?

- E, como grupo, como comunidade, o que Deus pede para fazermos? Sairmos de onde e para onde?

Várias foram as conclusões dos pequenos grupos formados, como a necessidade de partilhar o que se aprende, de partir para ações mais concretas, além de reflexões. Não dá para ficar parado. Os grupos, as comunidades, têm que ser IGREJA EM SAÍDA.


Como a ciranda que todos dançaram, de mãos dadas, cantando Momento Novo: Por isso vem, entra na roda com a gente, também, você é muito importante, vem ...

A luta para transformar o mundo passa pela união da Fé e da política. E, nesse caso, não se trata de fazer do grupo ou comunidade fazer política partidária.  Mas sim ter a consciência de que a libertação passa pela fé e pela política, por aquilo que se acredita e pela vida.

E, viver hoje a Páscoa é não ser conivente com o que leva à escravidão da fome, da miséria e da pobreza. Enquanto houver fome e miséria no mundo, a Páscoa não será completa.

Dom Helder dizia que “A fome dos outros condena a civilização dos que não têm fome” .  Portanto, cada cristão, cada cristã, tem a missão assumir o protagonismo de fazer acontecer a verdadeira Páscoa na Igreja; de inverter a realidade, para que A civilização dos que não têm fome seja a mesma para toda a humanidade; uma civilização sem miséria, como sonhou Dom Helder.





O papa Francisco nos pede duas coisas nessa Quaresma:

1 – A Volta ao essencial da Fé, às raízes, à Igreja dos primórdios, à essência do cristianismo. Uma Fé voltada para a partilha, onde o cristianismo seja vivido no meio da vida e não seja apenas palavras repetidas, vãs e inertes.

Voltar à essência da Fé é ter misericórdia, ser íntimo de Deus e não realizar sacrifícios que em nada contribuem para melhorar a vida de nossos irmãos e irmãs.

2 – IGREJA EM SAÍDA – É  preciso que tenhamos a consciência de que o Deus que habita em mim não é minha propriedade, não é exclusivo meu. Ele é para ser levado aos outros, ao nosso próximo. E, aqui, vai uma sugestão de Dom Helder para se fazer na Quaresma. Ele dizia que “Eis um programa concreto de Quaresma: identificar nosso próximo de hoje. Próximo que mora conosco. Próximo que é nosso vizinho no trabalho.

Próximo, vizinho de apartamento e de rua. Próximo que surge em nossa frente, e nos procura, e nos fala ou tenta falar-nos!

E não vale selecionar entre próximo simpático e próximo antipático. Caiu na rede é próximo. Se é próximo é Cristo´.

Finalizando a pregação do Retiro, Marcelo Barros colocou os seguintes questionamentos:

- Como podemos, nessa Quaresma, em nossos grupos, fazer alguma coisa para unir esses dois pontos: voltar à essência da Fé e viver uma Igreja em Saída?

- O que fazer para encontrar o essencial?

- Qual a dificuldade para seguir esse caminho?

O Retiro foi encerrado com uma celebração onde a presença da comunhão se fez sentir, não apenas na partilha do pão, mas também na partilha da fé, dos ideais e da firme proposta de ser protagonista de um cristianismo autêntico, tendo como base os Evangelhos, que nos mostra o caminho da verdade e da vida.












quarta-feira, 1 de março de 2017

CARTA PARA O INÍCIO DA QUARESMA

"Hoje é o dia favorável para se receber a graça,
Hoje é o dia da salvação" (2 Cor 6, 2).

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, as antigas Igrejas cristãs (Católica, Ortodoxas, Anglicana, Metodista e Luterana) começam o tempo da Quaresma. A quarta-feira de cinzas é uma celebração que ficou mais na tradição católica e parece se contrapor ao Carnaval. Em uma paróquia que conheci, o padre fazia as cinzas da quarta-feira das fantasias do Carnaval que os fieis traziam para queimar. Pessoalmente, acho de mau gosto essa contraposição entre a brincadeira do Carnaval e a severidade da Quaresma, embora digam os históricos, que o Carnaval começou como três dias de festas e brincadeiras, prevenindo o tempo mais de jejum e penitências da Quaresma. Isso pode ter sido assim na Idade Media, mas não corresponde ao espírito mais profundo desse tempo. 

Nos primeiros séculos do Cristianismo, quando surgiu a Quaresma, era o tempo em que as pessoas que se preparavam ao batismo (catecúmenos) se preparavam mais intensamente para o sacramento da vida nova que receberiam na noite da Páscoa, na santa Vigília que é a mais importante de todas as celebrações cristãs.  E pouco a pouco, esse tempo da Quaresma, se tornou também o período do ano no qual, do mesmo modo que os catecúmenos esperam a Páscoa para serem batizados, os penitentes (pessoas que haviam rompido com a comunidade e desejavam voltar a ser da Igreja) se preparavam pedindo perdão e aprofundando a fé para serem reconciliados com a Igreja na quinta feira-santa e assim poderem já plenamente integrados na comunidade, celebrarem a Santa Páscoa. De todo modo, se vê que o sentido mais profundo da Quaresma é o que São Bento diz para os monges em sua regra: "esperar com alegria a Santa Páscoa".

Como viver isso hoje em dia? De um lado, a festa da Páscoa não é apenas o rito que lembra a morte e ressurreição de Jesus. É um sacramento, isso é, um memorial que revive e nos faz atualizar em nossa vida e no mundo a energia da Páscoa de Jesus. Então, pessoalmente, considero a Quaresma e Páscoa como um tempo de renovação da consciência, revisão profunda de vida e como um tempo no qual me proponho a dar passos novos em um jeito novo de viver e de conviver. Isso não é fácil. Por isso, preciso sim intensificar não somente nesse tempo, mas  a partir desse tempo, a leitura da palavra de Deus, a oração e a solidariedade efetiva e afetiva aos irmãos e irmãs, especialmente o meu compromisso prioritário e profundo com os pobres.

Houve uma época na qual, na Quaresma, eu fazia pequenos ou maiores gestos de renúncia (não comer doce na Quaresma, não ir ao cinema, etc). E quando acabava a Quaresma, tudo voltava ao normal. Não creio mais nesse tipo de ascese, embora compreendo o valor do autocontrole e do ser capaz de me dominar a mim mesmo naquilo que eu gosto. Mas, prefiro fazer esforço no que é essencial e que sinto que ainda preciso mudar: a capacidade de partilhar tudo o que sou e o que tenho com os outros, a capacidade de lidar bem com a fragilidade da idade que chegou e com o corpo envelhecido que a gente sente que vai caindo aos pedaços, mas que o espírito seja capaz de mantê-lo de pé e altivo até a hora em que for o caso de partir.

A Quaresma é principalmente o tempo de retomar a esperança - esperança de que eu sou sempre capaz de me converter e me tornar mais semelhante ao meu mestre Jesus e mais irmão de todas as pessoas - Que nessa Quaresma Deus me torne mais uma pessoa de comunhão - que minha espiritualidade e teologia partam do carinho e se façam sempre de ternura pelos meus irmãos humanos e por todos os seres vivos. Que essa conversão tome forma de solidariedade à natureza, no cuidado com os ecossistemas (Campanha da Fraternidade desse ano de 2017) e me faça retomar sempre a esperança da construção do reino de Deus, mesmo no Brasil do Termer e do mundo do Trump.

Aprofundarei nessa Quaresma uma contemplação de Deus como pequeno servidor da humanidade, um dalit indiano ou o que os bolivianos racistas de Santa Cruz de la Sierra costumam chamar "índio sujo da cordilheira". Um impuro que as Igrejas das castas clericais sempre acabam rejeitando ou discriminando. E Ele ou Ela nos convida para sairmos juntos à noite e transformar nossas noites em dias. Aí sim, aceito voltar a Goiás para o Tríduo Pascal e celebrar com a comunidade que ainda se reúne ali no antigo mosteiro a vigília-mãe de todas as vigílias da Igreja. E aí sim "mesmo as trevas não são trevas para ti. A noite será clara como o dia" (Salmo 139), cântico que resume o Exsultet (anúncio feliz da nova Páscoa) que cantaremos na madrugada do domingo pascal.

Para vocês uma santa e renovadora celebração desse tempo da Quaresma e Páscoa na comunhão com os nossos biomas e toda a mãe Terra.


Um abraço do irmão Marcelo 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

HISTORY OF RECIFE’S PALACE STRIKES A CHORD WITH CATHOLICS IN NORTH-EASTERN CORNER OF BRAZIL

MatÉria publicada no jornal inglês the tablet, pelo jornalista francis mcdonagh

14.02.2017

Manguinhos Palace is an elegant 19th-century mansion just outside the centre of Recife, in the Brazilian state of Pernambuco, that was once the residence of the archbishops of Olinda and Recife.  Once, because when Hélder Câmara became archbishop in 1964, he went to live in a set of rooms behind a small church a few miles away, as a symbol of the austerity he intended for his ministry.  When the Vatican appointed a conservative bishop, José Cardoso Sobrinho, to replace Hélder (as everyone calls him here), the Palace once again became the archbishop’s residence. 

What happens to the Palace is therefore significant to Catholics here, especially those who think Hélder’s legacy is worth preserving.  Recently there have been two “vigils of hope” to reclaim the Palace, organised by the local Forum of Lay Christians, the sort of groups that flourished under Dom Hélder.  The one I attended last week also commemorated what would have been Hélder’s 108th birthday.  Several hundred people gathered in the courtyard of the Palace to recommit themselves to Hélder’s vision of “a poor Church for the poor” and an “outgoing Church”, which were regarded as so subversive by Pope St John Paul II that all mention of them was banned in this diocese. 

The remarkable similarity between Pope Francis’ view of the Church and that of Dom Hélder was one of the points made at the vigil.  Visitors were welcomed by a giant puppet of Dom Hélder, in the style of Olinda’s carnival puppets, but the Dom Hélder puppet, I was firmly told, does not take part in carnival.

There was a roll call of the movements present, which gives an idea of the scope of what Hélder started.  There were movements connected with work, such as the Domestic Workers Union, Women Against Unemployment, the Christian Workers Movement, groups that sought to develop the link between faith and life such as the Church Base Communities, the Dom Hélder Câmara Faith and Politics Group, Vision and Revolution, the Centre for Biblical Studies and the Jesuits’ Humanitas Institute, based at the Catholic University.

And the bishop came. He doesn’t live in the Palace either, which is why he was late after battling through Recife’s rush hour.  Bishop Fernando Saburido, who is from Recife, said how proud he was to have been ordained as a priest by Hélder, and that he prayed to Dom Hélder.   Fernando has started the canonisation process in the diocese – how times have changed!  This is not the message you get in most churches in Recife on a Sunday, but Hélder talked of “Abrahamic minorities”, small groups whose faith can move mountains, and I met one here last week.

The Lay Forum is insistent that it isn’t backward-looking, but wants to promote action on current issues in Brazil. The one they have chosen first is the Government’s pension reform, which they say will make manual workers have to work as long as office workers before they can draw a pension.

Car wash corruption

The “car-wash” corruption scandal, involving mass embezzlement at the state oil company Petrobras, that has done so much damage to the Workers Party of Lula and Dilma Rousseff, is now lapping around the feet of the government that replaced Rousseff’s after her impeachment last year. President Michel Temer (Rousseff’s vice-president) wants to appoint his minister of justice and long-time political ally, Alexandre Moraes, to the Supreme Court.  Moraes was in charge of the prison system during the January massacres, and has been heavily criticised for inefficiency or brutality in previous ministerial posts.  His appointment has to be confirmed by the Senate’s Constitution and Justice Commission, 10 of whose members, including the chair, face corruption allegations in the “car-wash” affair.  “Foxes in charge of the chicken coup” was the verdict of a senior commentator last week on TV Globo, a broadcaster generally regarded as conservative.

TRADUÇÃO DA MATÉRIA

HISTÓRIA DO PALÁCIO DE RECIFE EMOCIONA  NO NORDESTE DO BRASIL

O Palácio de Manguinhos é uma elegante mansão do século XIX, situada no centro Recife, no estado brasileiro de Pernambuco, que foi a residência dos arcebispos de Olinda e Recife. Antigamente.  Porque quando Helder Camara se tornou arcebispo em 1964, ele foi morar em um conjunto de quartos atrás de uma pequena igreja a poucos quilômetros de distância, como um símbolo da austeridade que pretendia para o seu ministério. Quando o Vaticano nomeou um bispo conservador, José Cardoso Sobrinho, para substituir Helder (como todos o chamam aqui), o Palácio tornou-se novamente a residência do arcebispo.

O que acontece com o Palácio é, portanto, significativo para os católicos aqui, especialmente aqueles que pensam que o legado de Helder vale a pena preservar. Recentemente, houve duas "vigílias de esperança" para reivindicar o Palácio, organizado pelo Fórum local de Leigos, o tipo de grupos que floresceram sob Dom Helder. O que eu assisti na semana passada também comemorou o que teria sido o 108º aniversário de Helder. Várias centenas de pessoas se reuniram no pátio do Palácio para se comprometer com a visão de Helder de "uma Igreja pobre para os pobres" e uma "Igreja extrovertida", considerados tão subversivos pelo Papa João Paulo II que todas as menções eram Proibido nesta diocese.

A notável semelhança entre a visão do Papa Francisco sobre a Igreja e a de Dom Helder foi um dos pontos da vigília. Os visitantes foram recebidos por um gigante fantoche de Dom Helder, no estilo dos bonecos de carnaval de Olinda, mas o fantoche Dom Helder, segundo me disseram com firmeza, não participa no carnaval.

Houve uma chamada dos movimentos presentes, o que dá uma ideia do escopo do que Helder começou. Houve movimentos relacionados com o trabalho, como o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos, o Movimento dos Trabalhadores Cristãos, os Grupos que buscavam desenvolver o vínculo entre fé e vida, como as Comunidades de Base da Igreja, o Grupo de Fé e Política Dom Helder Camara, Visão e Revolução, o Centro de Estudos Bíblicos e o Instituto Humanitas dos Jesuítas, com sede na Universidade Católica.

E o bispo veio. Ele também não mora  no Palácio, razão pela qual ele estava atrasado depois de lutar pela hora de pico no transito) do Recife. Dom Fernando Saburido, que é de Recife, disse que estava orgulhoso de ter sido ordenado sacerdote por Helder e que orou a Dom Helder. Fernando iniciou o processo de canonização na diocese - como os tempos mudaram! Esta não é a mensagem que você recebe na maioria das igrejas no Recife em um domingo, mas Helder falou de "minorias abraâmicas", pequenos grupos cuja fé pode mover montanhas, e eu encontrei um aqui na semana passada.

O Fórum de Leigos insiste que não é retrógrado, mas quer promover ações sobre questões atuais no Brasil. O que eles escolheram em primeiro lugar é a reforma do sistema de pensões do governo, que dizem que vai fazer os trabalhadores braçais terem que trabalhar tanto quanto os trabalhadores de escritório antes que eles possam conseguir a aposentadoria.

CORRUPÇÃO DA LAVA-JATO

O escândalo de corrupção da lava jato, envolvendo o desfalque em massa da Petrobras, que tem causado tantos danos ao Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma Rousseff, agora está rodando em torno dos pés do governo que substituiu Rousseff após seu impeachment ano passado. O presidente Michel Temer (vice-presidente de Rousseff) quer nomear o seu ministro da Justiça e aliado político de longa data, Alexandre Moraes, para a Suprema Corte. Moraes foi responsável pelo sistema penitenciário durante os massacres de janeiro e tem sido fortemente criticado por ineficiência ou brutalidade em cargos ministeriais anteriores. Sua nomeação deve ser confirmada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, dez de cujos membros, incluindo a presidente, enfrentam alegações de corrupção no caso da Lava a Jato. "Raposas a cargo do golpe de galinha" foi o veredicto de um comentarista sênior na semana passada na TV Globo, uma emissora geralmente considerada como conservadora.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

UMA NOVA PRIMAVERA NA IGREJA



Novos tempos sopram na Igreja Católica. Tempos de uma primavera que vem para iluminar, florir e perfumar os caminhos e, assim, renovar uma Igreja que se perdeu me meio a burocracia, ao legalismo, ao que é e não é permitido e se agarrou ao Cristo crucificado, deixando de lado o momento mais importante e glorioso da história do cristianismo: a ressurreição.

E Francisco veio para trazer essa primavera, esse resgate da vida nova que Jesus Cristo veio anunciar e que deixou como presente para toda a humanidade.

E, ao celebrar três anos de criação o grupo Encontro da Partilha recebeu esse presente: a oportunidade de, ao lado do Grupo Fé e Política Dom Helder  Camara, realizar o evento UMA PRIMAVERA NA IGREJA, que contou com o inestimável apoio do Instituto Humanitas, em relação à infraestrutura e à divulgação.


A Primavera soprou em duas partes. A primeira, aconteceu no dia 13 de outubro, no auditório G2 da Unicap, com um bate papo que terminou por se transformar em uma palestra, devido ao grande número de pessoas que super lotou o auditório, com Leonardo Boff falando sobre Compaixão, Espiritualidade e Cuidado, para uma plateia atenta e entusiasmada, que entoou, por duas vezes, um coro de “fora Temer” e ainda “fora Geraldo”.



Foi um momento de reflexão e reencontros, como sempre acontece quando a Igreja viva da Arquidiocese de Olinda e Recife, sedenta de saberes e partilhas de conhecimento, é presenteada com uma ocasião assim. O papa Francisco, o emissário da primavera, foi o grande reverenciado da noite, por sua conduta evangélica, que leva o cristianismo às suas últimas consequências e quem, por isso mesmo, tem desagrado àqueles que veem nas leis elaboradas pelos homens uma doutrina mais importante do que o que ensina os Evangelhos.




E, dando prosseguimento ao sopro da primavera, na sexta-feira, 14, foi a vez do painel Religiões Afro: raízes e diálogo, com Marcelo Barros e Vera Baroni, mediados pelo Pe. Clovis Cabral, que deu ao momento um tom de uma conversa informal, um bate papo, interagindo com a plateia e colocando em pauta as causas dos preconceitos com as religiões de matriz Afro.


Foi um momento de aprendizado para todos os presentes, ao ouvir sobre a história e as raízes dessas religiões e também de muita reflexão, pois, não caberia a cada um de nós a função de procurar combater esse preconceito?





O Encontro da Partilha e o Fé e Política Dom Helder Camara agradecem a todos que contribuíram para que o evento fosse bem sucedido. Em primeiro lugar, nossos agradecimentos a Leonardo Boff e Márcia Miranda, a nosso orientador espiritual Marcelo Barros, a Vera Baroni, sempre receptiva aos nossos convites, ao Pe. Lúcio Ribeiro Cirnecoordenador do Humanitas, ao Prof. Carlos Vieira, que prestou uma super colaboração, sempre ao nosso lado, viabilizando o evento, ajustando conosco os detalhes, ao Pe. Clovis Cabral por sua participação no painel e ao Pe. Kiko, pelo apoio e força ao evento. E nossos agradecimentos a todos que compareceram ao evento, que divulgaram e que acreditaram que valia a pena estar ali.





Ao final dos dois dias ficou a certeza de que foi um verdadeiro sucesso, que as pessoas gostaram muito e, que, o melhor de tudo, ficou um gostinho de quero mais. Quem sabe?